Luz no fim do túnel
O meu trabalho é especialmente maçante nas noites de sábado. Além de fazer zilhões de ligações para saber o que acontece nos mais inóspitos recantos do Rio Grande do Sul, tenho que liberar zilhões de comentários escritos por salsinhas no site do jornal e atender zilhões de ligações dos leitores, que vão desde reclamações de barulho até pedidos dos resultados da Mega Sena.
Hoje então, eu achei que ia enlouquecer: além de problemas pessoais, que não vêm ao caso agora, devorei durante a tarde o livro que a Mari tinha me emprestado, “Bar Bodega” do Carlos Dornelles, que me causou efeito semelhante ao de um tapa na cara. Embarquei no ônibus rumo à redação já repensando as minhas escolhas, com nojo do jornalismo praticado nos grandes veÃculos e com nojo de mim mesma, a tÃpica representante da classe média que não hesita em apontar o dedo para os vagabundos que ameaçam a sua paz alienada.
Para piorar as coisas, meu sábado de trabalho foi sacudido pela notÃcia de que uma briga de gangues resultou em um tiroteio. Saldo: um menino de 15 anos morto, e 10 pessoas baleadas. Isso mesmo, DEZ adolescentes baleados no meio de uma festa junina na escola. E onde eu tinha passado a tarde? Na festa junina da escola do meu filho que não, não era a mesma, a propósito. Vocês podem imaginar o quão deplorável o meu humor estava a essa altura do campeonato, né?
Mas tudo que é ruim, pode piorar. Logo depois um rapaz de 25 morreu em um acidente de trânsito. Entrevistei um policial rodoviário, que me contou como foi o choque, e quando eu ia desligando, ele disse:
- PeraÃ, peraÃ, tem mais uma coisa. Teve um parto também.
- Como assim um parto? Onde? Quando?
- Uma mulher deu à luz, dentro do carro. Estava presa no engarrafamento que o acidente provocou.
Pára tudo. Parecia um sinal de Deus, e olha que eu deixei de ser religiosa há muito tempo. Sob condições adversas, uma vidinha se iniciou ali, no meio do caos. Era o que eu precisava ouvir: por piores que as coisas pareçam, sempre surge uma boa notÃcia. A boa notÃcia, nesse caso, foi o Tailor. O pai fez o parto ali, no meio da BR-116, depois deu meia-volta e parou no posto da PolÃcia Rodoviária. Lá, os patrulheiros, ainda mais acostumados com tragédias do que eu, tiveram sua rotina quebrada por um sopro de esperança. E depois escoltaram a famÃlia até o hospital mais próximo. Todos passam muito bem, obrigada.
Seja bem-vindo, Tailor, a esse mundo cruel. Nunca deixe de fazer diferença, como fizeste hoje. Depois de saber da tua chegada, tudo parece melhor. E acho que escolhi a carreira certa.
* Não é a obra-prima que a ocasião pedia, mas confiram a notÃcia completa.



Lindo, amiga!
Sobre o livro, acho que todo copyano deveria ler, aliás todo jornalista! Mudou muito a minha concepção de jornalismo e me fez temer o tipo de profissional que eu poderei me tornar.
sabe que sou jornalista tb, e decepcionei-me totalmente com a realidade da nossa profissão. e olha que eu era daquelas amor à camiseta, a notÃcia e a verdade acima de tudo… pifff… foi-se o idÃlio.
mas ler que no meio do caos ainda nasce um pouquinho de esperança me anima para seguir em frente (não na profissão, que quero sair o mais rápido possÃvel hehhe) mas na vida. acredito que ainda há chance para a humanidade.
bjus!
Muito bom Gi!!
Salvou o meu dia: trabalhando, enquanto um sol de 40 graus e muitas loiras californianas e peitudas bronzeam-se ao deleite de raios UVB.
Precisava ler algo que me fizesse pensar que tem gente em situação muito pior que a minha, mas que nas maiores dificuldades, mostra uma tremenda força e coragem de sobrevivência!
Um grande beijo!
Rooney!
Mazáá!
Tiago Rech dando o ar da graça por aqui!!
Saudade, chuchu
Lindo mesmo Gi!!! São essas coisas que fazem acreditar em coisas que já não eram possÃveis!
Quanto ao livro faz pensar mesmo nessa carreira que queremos seguir…putz sem condições de falar em carreira!
Adorei o site de vcs!!!
Bjus
Querida,
que lindo texto. Como já trabalhei por essas bandas, sei bem como é, e me sentia tão frustrada quanto…
é a vida, a nossa profissão perdeu para os interesses econômicos. Como uma quase formada jornalista, não tenho mais nenhuma identificação com a profissão, mas admiro quem, mesmo nas adversidades, consegue se encontrar
sucesso, bem!
Mircele!
Bom receber tua visita por aqui! O que tem feito?
Saudade chuchu!