Eu tenho medo (e um pouquinho de conversas furtadas)

29out 16:59

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- O Fábio levou uma coronhada…

- Bem feito! Odeio ele!

- Agora ele quer buscar os caras que fizeram isso com ele.

- E tu já tomou tiro, né?

- Sim, quando acordei estava em uma cadeira de rodas, todo machucado no hospital.

- E dói?

- Bah, eu achei que tava morto. Todo mundo deixou recado no meu Orkut como se eu tivesse morto.

- E tu teve que te esconder?

- Sim, passei um tempo na Protásio, outro na Vila não-sei-o-quê, e mais um tempo no interior. Passava os dias no Playstation e no computador. Mas mandei um recado pro cara que fez isso: o dia que eu ver ele, mando para o quinto dos infernos!

___________________________________

Esse diálogo tão inocente não faz parte de um desses filmes que mostram a realidade brasileira e fazem tanto sucesso mundo afora. Nem é um diálogo copiado do Conversas Furtadas. Esse diálogo eu ACABEI de ouvir dentro de um ônibus. Na maior naturalidade, quatro jovens (uma menina entre eles) comentavam sobre os problemas que tiveram com a polícia e com as gangues rivais. Eu, sentadinha do lado, tentava fazer cara de paisagem – tipo “hey, mano, nem me olha que eu sou do movimento”. Mas fiquei com muito medo: e se o cara que ele jurou de morte entrasse no coletivo? E se eles fossem assaltar o ônibus? E desde quando se fala dessa maneira, sobre tais assuntos, sem o mínimo de preocupação com as pessoas em volta?

A verdade é que Porto Alegre (e a maioria das cidades desse nosso belo Brasil) está entregue à marginalidade. Notícias sobre latrocínios, assassinatos e outros crimes brutais tomam conta dos jornais, rádios e revistas. Muitas eu mesma escrevo: “Fulano de tal, XX anos, foi assassinado com X tiros no local tal. A polícia desconhece as circunstâncias do crime e não tem suspeitos”. E não se fala mais nisso. A não ser, claro, que seja uma mãe de classe média, ou um jovem universitário com um futuro brilhante pela frente. Nestes casos, costuma-se cobrir também o velório e as inevitáveis manifestações pela paz que se seguem.

Mas a paz que é bom não vem nunca. A cada dia que passa, são mais viciados em crack desesperados na rua, que não têm o menor pudor em tirar uma vida por qualquer tênis ou celular que possa ser trocado por uma pedra. E a cada dia são menos policiais na rua. Tanto que eu, que moro no centro da cidade, não tenho dúvidas em ligar para o jornal quando vejo uma viatura transitando por aqui. Eles atendem as ocorrências depois que elas acontecem, mas prevenção que é bom, nada. Por isso fiquei até com raiva no dia das eleições: na frente de cada zona eleitoral dois policiais combatiam a boca de urna. Mas onde esse pessoal se esconde no resto do ano?

Eu, que nunca fiz mal a uma mosca, me tornei prisioneira desde o dia em que um cara engatilhou uma arma e me disse que atirava se eu não entregasse minha bolsa. Enquanto isso, esse povo do mal circula livremente, certos de que a impunidade impera. Tal qual Regina Duarte, eu tenho medo. Mas não deveria. Eu deveria receber do Estado a segurança pela qual eu pago. Ou meus impostos só servem para controlar a crise econômica? Quando aqueles caras lá em Brasília vão fazer algo que preste, revisar o Código Penal e garantir que os meliantes fiquem realmente presos por muitos e muitos anos? Quando é que os bandidos vão ter medo de meter a cara? Ou as coisas vão piorar ainda mais?

Enfim, é apenas um desabafo. Sei que toda essa discussão é muito profunda e envolve educação, melhores políticas sociais e outras coisas, mas acho que tá na hora da tolerância zero. Eu não quero mais ter medo.

Sobre Diva Diz

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Comentários

  1. Sil disse:

    Infelizmente Porto alegre esta sitiada. Não podemos andar mais tranquilos. Quando não é uma historia que ouvimos, é um cara que nos aborda, é um menino que nos assalta. E falo isso com propriedade. Sou aluna de um pre-vestibular na Independencia e quase todas as noites, se não saimos em bando alguem é assaltado. Fico tão chateada,sabe?

    Em 2005 fui assaltada saindo do teatro do Ipe, quando liguei para policia sabe o que me disseram? ” Um moça não deve andar sozinha”.

    Agora a falta de segurança tem um novo agravante, um conservadorismo ridiculo da nossa sociedade.

  2. Ane Meira disse:

    Puta que pariu, te disseram isso? Eu acho que essa questão da violência é mais profunda. Criaturas crescem à mercê da brutalidade social, marginalizadas e estigmatizadas pela sociedade. A única forma que eles encontram pra reagir e se encontrar com indivíduo nesta sociedade é pela violência. E dessa forma a gente se torna refém da soma que é a falta de planejamento econômica+política+social+familiar. Enfim, teorizar sobre isso é taõ fácil como ser assaltado hoje em dia.

  3. Mariana disse:

    E eu tenho medo por não fazer parte das estatísticas. Sério. 99% da população já foi assaltado. Eu, graças a Deus não, mas sempre espero por isso. Não é o cúmulo? Ficar o tempo todo esperando o pior? È muito triste. E o que mais me preocupa é: poderei ter filhos numa sociedade como esta? Eles não se tornaram reféns de um violência desmedida?

    Medo, muito medo.

  4. kladina disse:

    com +- 18 anos, eu estava saindo da escola/curso técnico e começando a faculdade, e me associei à um projeto, onde faziamos atividades culturais/educacionais em bairros pobres, chamado Manguerê… eu dava aulas de informática para crianças junto com 2 rapazes num centro cultural de um dos bairros mais antigos da ilha, berço da cultura local… nem era um dos bairros mais pobres de São Luís, mas certamente um dos mais marginalizados…
    Foram quase 10 meses de aprendizado q vou levar para a vida toda.. momentos maravilhosamente gratificantes, e outros assustadores… e olha q nem era nada de mais… era aulas… mas eu vi cada coisa… criança de 10-12 anos doida p aprender, mas tendo sair do curso (que era gratuito, detalhe), pq pai e mãe não queriam que “o guri ficasse com minhocas na cabeça”… ou pq tinha q trabalhar p tráfico no mesmo horário… até ameaçados nós fomos… eu então que era a única garota… nem quero comentar o que eu ouvi…
    De fato é uma discussão profunda… e um problema complicadíssimo que so tem solução à longo prazo… e hoje, infelizmente eu posso dizer que pouca coisa referente à esse assunto me choca… ¬¬

  5. Eduardo disse:

    Convivo quase todo dia com esse tipo de violência, na escola. Tá tudo tão banalizado, a ausência de estado tá tão “presente”, que virou guerra de todos contra todos.

    O nível de Absurdo chegou na estratosfera na semana retrasada, quando a diretora entrou na sexta série pra ameaçar uns guris da turma, dizendo que na próxima vez que eles picharem e briogarem ela vai chamar a Brigada Militar. Aí, um dos meliantes, que tem 13 ou 14 anos, disse, depois que ela saiu:

    - Se ela chamar a Brigada, eu vou começar a vir armado.

    Como diz um amigo meu:

    “O Brasil está em nossas mãos. E não adianta lavar, que não sai.”

  6. Esse assunto é muito complexo, como você mesma disse, e a Ane Meira concluiu. Mas, não devemos deixar de discutir, conversar, ler e tentar entender essa joça.

    Faltam políticas públicas básicas, como educação e saúde; o mínimo, que não se tem. Daí, esse povo, fica revoltado de verdade com a situação. E tem mais agravantes, como o racismo, por exemplo.

    O maior culpado pela violência urbana não é o rapazote que aponta uma arma pra sua cabeça para comprar droga, e sim, o próprio Estado Brasileiro, que está mais preocupado em manter um conservadorismo boçal em detrimento da maior parte da população.

    Pior para mim é a reação da mídia com isso, ficando mais concentrada em criar factóides para derrubar o governo federal do que em investir em programas sérios e limpos.

    Está na hora de mudar? Sim, há muito tempo. Mas, a maioria de quem realmente sustenta o intelectual deste país está mais preocupada em querer se achar européia imaginando um mundo iluminado e branco do que em fortalecer os laços nacionais.

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