Cota de Ousadia
No desfile da Neon no domingo, a marca fez jus ao nome. Peças com tons neon, muito coloridas e muita ousadia foram fatores constantes em todos os looks. Porém, o destaque maior foi para a peça desfilada pela modelo Malana (participante da segunda edição do Brazil’s Next Top Model). Na frente, via-se um suposto maiô muito bem comportado, num tom marrom-claro. Atrás, via-se somente tiras que deixavam o corpo da modelo praticamente nu. E que corpo! Mas pra mim, chamar isso de ousadia é, no mínimo, hipocrisia. Sabe por que?
Além do fato de que o fio dental é desfilado nas praias brasileiras há muito tempo, Malana desfila seu corpo perfeito sem medo. Ele é de fazer inveja a muita gente sarada, freqüentadoras assíduas de clínicas de estética. Pode procurar, ali não tem celulites nem estrias. Mas sabe o que é realmente belo? Ela é negra. Apesar do nosso país tropical e miscigenado, as modelos negras são minoria nas passarelas: o culto às loiras de olhos claros ainda é muito forte e presente. E isso fica bem claro quando vemos que foi preciso um acordo assinado entre a organização do SPFW com o Ministério Público Estadual, para garantir que 10% do casting seria de modelos afrodescendentes ou indígenas. Precisamos de garantias por lei para que modelos negros cheguem às passarelas! E não sei porque é tão difícil para o diretor da agência Mega Models, Raphael Garcia, encontrar a razão para que meninas negras encontrem dificuldades para procurar agências para fazer um book. Além de ser extremamente caro e exigir um investimento, a realidade do mercado de trabalho é desanimador. Então, ao falarmos de ousadia, que tal falarmos da ousadia dessas garotas ao se lançarem no mundo da moda, a ousadia de manter-se num mercado tão inóspito e, por que não, a ousadia de ter um corpo perfeito perto de tantas raquíticas que vemos desfilar por aí.
Ah! E sem esquecer que a Neon também merece ser chamada de ousada, sim! Em todos os desfiles apresentados até agora, tanto no Fashion Rio como no SPFW, praticamente todas as marcas desfilaram as mesmas tendências: sobreposição com transparência (organzas reinaram absolutas), calças de cós baixo (saruel ou boyfriend jeans), ombros destacados (com golas altas e desestruturadas) quadris destacados (a maioria por bolsos), estampas com tons “psicodélicos”, roupas em tons beges, cinza, preto ou amarelo. Praticamente nenhuma novidade “usável” foi mostrada. Então chega a Neon com listras, chapéus e cores múltiplas, e você pensa: “será que finalmente vou ver algo diferente, ao invés de ver desfiles re-fazedores de tendências importadas de desfiles internacionais do ano passado?!”.
Mais criatividade, menos ctrl+c ctrl+v, por favor!



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